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  • Franciele Schimmelfennig

Questões culturais impedem candidaturas femininas

Atualizado: Jan 25

O trabalho doméstico, muitas vezes realizado apenas por mulheres, continua sendo o principal obstáculo no processo eleitoral


Apesar de alguns avanços na percepção da mulher como um ser político-partidário, existem diversos problemas que devem ser resolvidos para ampliar o número de candidaturas femininas. Nas eleições proporcionais, isto é, quando há votação para eleger vereadores, deputados estaduais ou deputados federais, a legislação eleitoral determina que cada partido ou coligação preencha o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Como a maioria dos candidatos é homem, as mulheres teriam, segundo a lei, direito a 30% das candidaturas.

Nas eleições de 2018, os partidos preencheram esse requisito, só que, de acordo com a Coordenadora da Escola Judiciária Eleitoral do Rio Grande do Sul (Ejers), Débora Vicente,análises da Justiça Eleitoral constataram que muitas mulheres nem sabiam que estavam concorrendo, pois haviam sido utilizadas fotos de seus perfis de redes sociais no preenchimento da Requisição de Registro de Candidatura, a RRC.

Na tentativa de evitar esse tipo de fraude, o TSE publicou a resolução n° 23.609, de 18 de dezembro de 2019, que dispõe sobre a escolha e o registro de candidatura nas eleições gerais e municipais. Um dos artigos dessa resolução diz respeito a falsas candidaturas. Havendo indícios de que a Requisição de Registro de Candidatura possui foto de internet, a divulgação será suspensa e o juiz ou relator poderá intimar o partido a apresentar formulário de RRC com a assinatura da candidata ou candidato e uma autorização expressa informando que autorizou a utilização da imagem em questão.


De acordo com Débora Vicente, os partidos políticos alegam dificuldades em encontrar mulheres que queiram, de fato, se candidatar. Ela destaca, no entanto, que mais de 40% dos filiados políticos, segundo dados oficiais da Justiça Eleitoral, são mulheres. Para Débora, esse percentual reforça o interesse feminino pela política partidária. Outro ponto importante para a coordenadora do Ejers é o trabalho sem fins lucrativos em campanhas. Atualmente, segundo ela, 90% do voluntariado brasileiro é exercido por mulheres. O que é fazer trabalho voluntário? É trabalhar para a sociedade, fazer política. Isso é politica! Então, as mulheres fazem, querem e gostam. O que elas não querem é pedir cotas sabendo que não terão investimentos dos partidos em suas candidaturas”, conclui.

A deputada estadual e fundadora do Partido Socialismo e Liberdade, (Psol), Luciana Genro, entende que as cotas ajudam, no entanto, diz que faltam estruturas sociais, como creches noturnas e lavanderias populares para que haja paridade na disputa eleitoral entre homens e mulheres. Ela destaca, ainda, que, como o trabalho doméstico re

cai, principalmente, sobre as mulheres, isso acaba complicando a participação feminina no meio político. Para a coordenadora da Ejers, “enquanto homens e mulheres não dividirem, definitivamente, os cuidados domésticos”, o caminho em direção à igualdade de gênero na política será longo.

Outras questões também impedem e dificultam a participação das mulheres na politica. Luciana Genro diz que os partidos investem em candidaturas femininas apenas no processo eleitoral, deixando de lado a construção da vida política como um todo. Para ela, isso diminui as condições de vitória das candidatas, pois uma eleição não resulta apenas de uma disputa eleitoral, mas de uma trajetória de militância partidária e atuação política.


Visando o empoderamento feminino, iniciativas civis, de inovação política, buscam diminuir essa desigualdade. Segundo a vice-presidente do Vai ter Mulher Sim, Milene Bordini, o compartilhamento de informações contribui com a capacitação das mulheres, que almejam representar a classe perante a sociedade. A gente orienta as meninas. Com aulas de contabilidade eleitoral e legislação o movimento fortifica as mulheres, as faz ficarem mais visíveis”, afirma ela. Mostrando que as mulheres estão ocupando espaço em ambientes de poder, tais iniciativas comprem um papel fundamental na sociedade, o de incentivo a autonomia feminina, na luta, diária, pela igualdade de gênero.

De acordo com Débora Vicente, o Brasil está entre os países com o menor número de mulheres representadas na política, mas isso está começando a mudar. Nas últimas eleições municipais, segundo dados do TSE, Porto Alegre elegeu 11 vereadoras, que ocuparão 30% das cadeiras do legislativo municipal. Como na Capital, a resposta em relação à representação feminina também se espalhou pelo Estado. Em Caxias do Sul, 22% da nova composição parlamentar será de mulheres. Em Pelotas e Santa Maria, 19%em cada câmara. Para Débora, esse avanço representa um amadurecimento dos partidos, em relação aos investimentos financeiros, em campanhas femininas.

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