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  • Jhúlia Silveira

O ano de 2020 e a violência doméstica


A chegada da pandemia do novo Coronavírus trouxe diversas consequências negativas para a saúde pública e econômica do país. Mas, para as mulheres, uma das maiores dificuldades foi a violência doméstica, que cresceu no país.


Desde o mês de março de 2020, a pandemia do novo coronavírus se intensificou em todo o mundo e foi adotado o isolamento social, com o objetivo de minimizar a contaminação do novo vírus. Embora essas medidas sejam de extrema importância para a saúde pública, se tornou um pesadelo para milhares de mulheres brasileiras que vivem o terror da violência doméstica. Com o isolamento social, as vítimas acabaram sendo obrigadas a permanecer em casa com seus agressores. Além disso, enfrentaram um outro problema: a dificuldade de acessar algum canal de denúncia.


Desde o início da pandemia, houve um aumento de feminicídios no Brasil, chegando a 648 casos no primeiro semestre deste ano, 1,9% a mais que 2019, segundo dados do 14º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em outubro de 2020. Houve, também, um aumento de 3,8% em solicitações de atendimentos feitos às polícias militares em casos de violência doméstica, tendo sido registrados, no primeiro semestre, 147,4 mil chamados. Apesar desses números, houve uma redução de 9,9% dos registros feitos em delegacias. Tal fato pode ser creditado à maior dificuldade que as mulheres encontraram para registrar as denúncias, por conta do isolamento social, o que levou a um aumento de subnotificação dos casos.


O relacionamento abusivo é um dos casos de violência doméstica mais comuns. E, muitas vezes, acaba passando despercebido. Acontece quando o companheiro começa a proibir a vítima de algo, crises de ciúmes, ofensas ou até quebrar objetos para reprimir a vítima. V. G. P., 31 anos, que será aqui identificada com Maria, é uma dessas vítimas. Segunda ela, seu companheiro começou os abusos de forma sutil. “Ele pegava meu celular e excluía todos os homens que havia na minha agenda e redes sociais. Eu não gostava daquilo, mas achava que era apenas um ciúme bobo, até que foi ficando pior.”


Maria só percebeu que estava vivendo um relacionamento abusivo, quando as ofensas e ciúmes começaram a ficar mais graves e frequentes, com o companheiro a proibindo de sair de casa. Foi nesse momento que também começaram as agressões físicas.


Assim como Maria, muitas mulheres vivem um relacionamento abusivo e acabam não percebendo e achando esse comportamento normal. A violência doméstica não está relacionada apenas a agressões físicas, pois nem toda agressão é física. A violência doméstica inclui diversos tipos de abusos, além dos físicos. Tem os verbais, os emocionais, os econômicos, os religiosos, os reprodutivos e os sexuais. São abusos que vão desde as formas mais sutis até às agressões físicas violentas, podendo chegar até a morte.


Segundo a psicóloga Virgínia Murr, quanto mais discutirmos e expormos a violência doméstica, mais vamos ajudar esse assunto a deixar de ser tabu. Somente assim será possível ajudar as mulheres que vivem essa situação a saírem de relacionamentos abusivos. “Vivemos em uma cultura machista, onde ainda, na maioria das famílias, o homem, mesmo que ainda mascarado, ainda acaba sendo o ‘chefe da casa’. Ditando regras e afirmando que a mulher ‘depende’ dele para tudo. E mesmo com toda a luta e crescimento do feminismo, algumas mulheres acabam acreditando e vivendo desta maneira, por serem criadas desta forma”.


Virgínia Murr acredita que o homem pode se sentir desconfortável no ambiente doméstico. "Com esta nossa cultura machista, o ‘macho, provedor’ estando em casa, mais próximo do ambiente onde ‘normalmente’ a mulher é quem cuida, existe uma ideia de perda de poder, e, com isso, podem ser acionados alguns gatilhos para comportamentos violentos, como se houvesse uma disputa de poder".


Após não aguentar mais as ofensas e agressões, Maria se deu conta que não poderia viver daquela forma. “Eu não estava mais feliz com ele, mas eu o amava e não queria deixá-lo. Eu não tinha mais forças para viver daquele jeito e foi aí que eu percebi que eu não ia desistir de mim e decidi denunciar”.


Maria viveu dois anos e meio num relacionamento abusivo, com medo do próprio companheiro de vida, daquele que deveria cuidá-la e protegê-la. Hoje, ela está bem. Mora com seu novo companheiro e filho e decidiu seguir seu sonho de ser professora e cursa Pedagogia. “Nós, mulheres, nunca devemos desistir dos seus sonhos por ninguém. Não tenham medo de enfrentar ou denunciar. Não devemos aceitar menos do que merecemos. Somos fortes e capazes de tudo”, aconselha Maria.



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